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Como os últimos 50 centímetros de uma corda salvaram os rapazes da gruta

Foto: Linh Pham/Getty Images

As operações de busca pelas doze crianças e pelo treinador que ficaram presos no interior de uma gruta no norte da Tailândia começaram no próprio dia, sábado, 23 de junho, em que o grupo — uma equipa de futebol da cidade de Mae Sai, na província de Chiang Rai — entrou no complexo de Tham Luang. Tudo teve início depois de a mãe de uma das crianças ter alertado as autoridades que o rapaz não tinha regressado a casa a seguir a uma visita de estudo com o clube da escola. Pouco tempo depois, um guarda do parque natural encontrou as bicicletas dos jovens abandonadas junto à entrada da caverna. Foi ele quem avisou a polícia de que podia haver gente no interior da gruta e que essas pessoas deviam estar encurraladas porque a chuva que caiu nesse dia teria inundado a maior parte das câmaras.

Os fuzileiros tailandeses foram chamados e as primeiras missões de busca começaram logo às duas da manhã locais, quando os mergulhadores do corpo militar do país se dividiram em três equipas de seis pessoas e, durante dezasseis horas, entraram alternadamente dentro da gruta para explorar as câmaras mais próximas à entrada.

Um dia depois do desaparecimento das crianças, os guardas do parque encontraram impressões digitais, sapatos e mochilas com alguns mantimentos junto à segunda câmara da gruta, a três quilómetros da entrada do complexo, o que reforçou a ideia de que os rapazes ainda podiam estar lá dentro. Apesar de as esperanças terem renascido com essa descoberta, as operações tiveram de ser suspensas porque os níveis de precipitação estavam a subir e a chuva podia inundar as únicas três câmaras que estavam secas, junto à entrada.

Na segunda-feira seguinte, no entanto, e já com o governador da região Narongsak Osottanakorn à frente das operações, os fuzileiros deram um passo importante: estabeleceram uma base na terceira câmara, a última a que tinham tido acesso. Para tal instalaram um cabo elétrico com um quilómetro de comprimento que pudesse fornecer luz aos mergulhadores e energia para alimentar sistemas de comunicação, ventiladores que mantivessem a qualidade do ar no interior do complexo e bombas de extração de água, três das quais foram montadas a 500 metros da entrada da gruta (na segunda câmara) e outras seis a cerca de 1.500 metros da entrada, na tentativa de diminuir a profundidade da inundação. Mas a energia fornecida através desse cabo elétrico teve de ser cortada por diversas vezes: chovia mais do que a água que as bombas de extração conseguiam bombear para a superfície, o que ameaçava mergulhar os fios elétricos e aumentar o risco de eletrocussão.



Mais de cem furos foram feitos na tentativa de libertar a água da chuva, que em algumas partes chegou a ter cinco metros de profundidade e a aumentar 15 centímetros por hora — mas o esforço foi inglório, mesmo apoiado por materiais mais sofisticados enviados pelo Departamento de Águas Subterrâneas da Tailândia e pelas barragens improvisadas à superfície, construídas para evitar a entrada de mais chuva. Uma equipa foi destacada especialmente para, também no solo, procurar fendas que pudessem permitir aos exploradores acederem às partes mais profundas da gruta com equipamentos geológicos e câmaras. A PTTEP, uma empresa de exploração de petróleo na Tailândia, enviou uma frota de drones para constituir um esquema tridimensional das cavernas e um sonar para desenhar em computador um mapa das partes submersas da gruta.

Depois de terem encontrado a junção de Sam Yaek, um novo passo foi acrescentado na estratégia das equipas de resgate: os mergulhadores começaram a distribuir botijas de oxigénio espaçadamente desde a entrada até à interseção dos corredores: três dessas botijas foram colocadas a cerca de 2.225 metros da entrada da gruta, logo a seguir à terceira câmara onde os mergulhadores montaram uma base com equipamentos e outras três foram postas meio quilómetro depois, poucos metros antes da junção com formato de T. Outros dois conjuntos de três botijas de oxigénio seriam postas mais tarde dentro da gruta — um logo a seguir ao cruzamento e outro perto da quarta câmara da gruta –, mas isso só viria a acontecer depois de o grupo ter sido encontrado (mas já lá vamos a esse momento de sorte).

Na quarta-feira, dia 26 de junho, as autoridades tailandesas pediram ajuda internacional na busca pelas doze crianças e um adulto de 25 anos perdidos dentro da gruta de Tham Luang.

Com cada vez mais elementos, as equipas de resgate decidiram adotar novas estratégias para encontrar os treze desaparecidos. Os drones e os helicópteros mobilizados para as buscas foram usados para encontrar assinaturas infravermelhas que desvendassem imagens térmicas que pudessem indicar a presença dos corpos dos rapazes; e os soldados, a par com os agentes da polícia, andaram a vasculhar a selva na cordilheira na esperança de encontrar entradas desconhecidas para a gruta.

Entretanto, os mergulhadores britânicos tiveram uma ideia para facilitar as operações de exploração da gruta: esticar uma linha que servisse de guia ao caminho mais fácil de percorrer ao longo das câmaras. Essa linha começou a ser esticada desde a terceira câmara, onde os mergulhadores deixam os materiais de trabalho, pelo britânico John Volanthen. A chuva tinha acalmado nos últimos dois dias, por isso o consultor de tecnologias de informação decidiu aproveitar a descida do nível da água no interior da gruta para montar o fio. Ao fim de dois quilómetros, pouco depois de ter passado Pattaya Beach, John Volanthen percebeu que não tinha mais fio e veio à superfície da câmara para perceber onde é que a podia prender. Foi então que encontrou a equipa completa, os treze, a olhar para ele.

— Levantem as mãos.
— Obrigada!
— Quantos é que vocês são?
— Treze.
— Treze?
— Sim, sim.
— Brilhante!

Antes de regressar, John Volanthen explicou à equipa que não voltariam naquele dia a casa: “Nós somos só dois e temos de mergulhar. Mas nós voltamos. Está tudo bem. Há muitas pessoas a virem. Muitas, muitas pessoas. Nós somos só os primeiros. Mas há muitas pessoas”. Os rapazes perguntaram que dia era e o mergulhador britânico respondeu: “Segunda-feira. Vocês estão aqui há dez dias. Foram muito fortes”. Depois prometeu regressar no dia seguinte. Se aquele fio fosse meio metro mais curto, os rapazes não teriam sido encontrados a 2 de julho. Era o suficiente para que o mergulhador não tivesse acesso à câmara onde a equipa de futebol foi encontrada.

Observador